O Brasil está se posicionando para se tornar um pólo importante na indústria global de data centers. De acordo com a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), há 40 pedidos de acesso à rede elétrica para empreendimentos de data centers no país, que totalizam 16 gigawatts (GW) em termos de consumo potencial de energia. Apesar das iniciativas do governo federal quanto à elaboração de políticas específicas para a indústria, existem grandes desafios para possibilitar a ampliação dos investimentos.
A atratividade do Brasil foi indicada em relatório de junho do ano passado da CBRE, empresa global de soluções para comercialização de imóveis comerciais. O estudo mostrou que regiões com maior oferta de energia renovável vêm sendo mais procuradas para a instalação de data centers. Nesse sentido, a matriz elétrica do Brasil, predominantemente limpa, poderia ser um fator decisório na atração de empresas com metas de descarbonização a cumprir.
Outro fator positivo compreende a conectividade do país com cabos submarinos acoplados a outros continentes. A posição geográfica do país também figura como fator positivo, pois o fuso horário brasileiro tem poucas horas de diferença para grandes centros comerciais mundiais, como Estados Unidos e Europa.
São Paulo lidera o total de empreendimentos no país e na América Latina, mas outras regiões se posicionam para atrair investimentos, especialmente Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
No estado nordestino, o Complexo de Pecém obteve a aprovação do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) para a conexão de dois data centers ao sistema elétrico nacional. A capital cearense é mencionada em análise da CBRE deste ano como um mercado emergente na indústria, por combinar “o acesso a cabos submarinos com produção de energia renovável a partir de fontes solar e eólica, além da proximidade com a costa leste dos Estados Unidos, que fortalece sua posição como porta de entrada para o tráfego global de dados”.
No Rio de Janeiro, a prefeitura lançou, neste ano, o projeto Rio AI City, com vistas a transformar a cidade em um hub de data centers. O empreendimento deve ficar na região do Parque Olímpico, com capacidade inicial prevista para 1,8 GW até 2027 e expansão para 3,0 GW até 2032.
Já no Rio Grande do Sul, o município de Eldorado do Sul deve abrigar “a primeira cidade de data centers” da América Latina. Uma resolução publicada em maio deste ano garante conexão de 5,0 GW de energia para o local, o que viabiliza a instalação e o desenvolvimento pleno desse projeto.
Apesar de a matriz energética ser um ponto positivo para o Brasil, a disponibilidade contínua de energia ainda representa um grande desafio. Data centers exigem fornecimento de energia ininterrupto, e fatores como a infraestrutura de transmissão e a intermitência das fontes eólica e solar complicam esse cenário tornam-se obstáculos relevantes. A utilização da energia nuclear através de pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês) pode ser uma alternativa para lidar com a intermitência, mas questões relacionadas a licenciamento no Brasil devem ser ponderadas para a utilização dessa solução.
É importante ressaltar que questões regulatórias e tributárias também compreendem obstáculos a serem transpostos para elevar os investimentos de data centers no país. Para enfrentá-las, o governo federal prepara um programa de incentivo à instalação de data centers no Brasil. Batizado de Redata, o programa deve incluir benefícios fiscais, como desoneração de impostos federais (PIS, COFINS e IPI) sobre a importação de equipamentos. Adicionalmente, o programa também deve incluir aspectos regulatórios importantes para a prover segurança aos potenciais investidores no setor. Entretanto, a MP, prevista inicialmente para ser enviada ao Congresso em maio, está, por ora, sem data de lançamento.
O governo estima que o Brasil possa atrair R$2 trilhões em investimentos no setor de data centers ao longo de dez anos, que incluem compra de equipamentos, construção das instalações de data centers e consumo de energia. Entretanto, para que o potencial de investimentos se materialize, os obstáculos precisam ser dirimidos para que o Brasil não perca a “onda de investimentos” nesse setor.